MARIA TODA DE DEUS E TÃO HUMANA

 

MURAD, Afonso. Maria toda de Deus e tão humana: compêndio de mariologia. São Paulo: Paulinas – Aparecida: Santuário, 2012

 

         A obra, que se apresenta como um compêndio de mariologia, contém 12 capítulos, distribuídos numa ordem de reflexão que apresenta Maria na Bíblia, na Tradição e nos dogmas. Não chega a ser exatamente um caminho metodológico baseado no ver-julgar-agir, mas começa com um ver, expondo as grades questões que a mariologia apresenta nos dias de hoje, questões que vagueiam entre uma visão dogmática cristalizada, que chega ao contexto popular sem muita reflexão, e uma visão mais crítica, que estudiosos, o contexto atual e as outras concepções cristãs apresentam como desafios para o catolicismo em geral.

 

         O autor também não segue rigidamente o caminho científico, pois, apesar de apresentar uma bibliografia a cada capítulo, não comprova com citações de rodapé de onde são extraídas informações importantes que vêm da patrística de autores atuais. Isso empobrece, mas não desmerece a reflexão, que é bastante rica. Mistura também casos populares e orações que ajudam a compreender a reflexão.

        

          É de se ressaltar uma afirmação feita no início do primeiro capítulo, a qual dá uma conotação que justifica a pertinência de se aprofundarem temas importantes em diversas áreas da teologia: “Quando se lê um livro de teologia, descobre-se que o conhecimento sobre a
revelação de Deus presta-se não somente para que saibamos mais, mas principalmente para que sejamos melhores: homens e mulheres mais lúcidos, conscientes, bondosos, integrados, como seguidores de Jesus” (p. 13). Essa proposta justifica que a obra faça um voo que ultrapasse
os limites de uma mariologia convencional e piedosa e busque respostas mais atuais para as grandes questões do tema. Há sempre o risco de o leitor simples se confundir e dar o mesmo valor ao que é aceito oficialmente pelo Magistério e ao que é ainda discussão para avanço no status quo da questão, o que significa que certas posições não são ainda teologia comprovada e aceita oficialmente pela Igreja.

 

         Infelizmente, isso não está claro no texto. De qualquer forma, é assim que a concepção magisterial também avança. No campo da reflexão há que ser ter alguma ousadia. Na verdade, o autor apresenta a figura de Maria como uma pessoa profundamente ajustada à revelação e nos incentiva a navegar por um rio que nos faça crescer não somente em conhecimento, mas em humanização. Para isso, não toma o caminho de uma mariologia, segundo a qual Maria é ressaltada pelos privilégios, mas pela participação no mistério de Cristo.

 

         Entre as correntes do “minimalismo” racional e do “maximalismo” devocional com que a teologia mariana tem sido apresentada, busca-se no bom senso a construção de uma mariologia mais profunda, atual e pertinente, sempre apoiada no Vaticano II. No entanto, é preciso, prestar atenção em que época vivemos. Parece que “antropocentrismo” já foi superado enquanto compreensão da presença humana como centro do mundo. No entanto, diz o autor que é essa mentalidade que “questiona uma Maria endeusada, sem história, sem contexto” (p. 19).

 

         É perfeitamente equilibrada e fundamentada no mistério de Cristo a análise feita do contexto marial pelo Concílio Vaticano II, sobretudo
na Constituição Lumen Gentium, como ressalta o autor. Quanto ao que os Evangelhos falam de Maria, o autor diz que falam pouco, mas o suficiente. Portanto não é preciso recorrer aos apócrifos, com seu colorido mais humano e menos teológico. O interesse dos evangelistas é manter vivos os fatos para animar os cristãos. Por isso, a mariologia bíblica segue sempre nesta perspectiva cristocêntrica e eclesial. Para Marcos, o fim da vida terrena de Jesus é marcado por um abandono total. O autor afirma que a morte é o coroamento da “fé” de Jesus (p. 41). Talvez a expressão “fé de Jesus” carecesse de melhor explicação, pois, segundo a Carta aos Hebreus, Jesus é o autor e o consumador da fé (Hb 12,2). Isso significa que Jesus é objeto da nossa fé, e não exatamente um exemplo de fé. Isto normalmente tem sido atribuído a Maria. Portanto, é para ele que devemos correr com o coração reto e cheio de fé (cf. Hb 10,22).

 

        Mateus inicia seu Evangelho, “mostrando como se refazem as grandes etapas da história do Povo de Israel, desde o início da história de Jesus” (p. 43). É ai que se encaixa a fuga e o retorno do Egito. Nesse propósito, Mateus “dá um passo a mais na descoberta da figura de Maria. Ela é a mãe virginal do Messias, sob a ação do Espírito santo” (p. 42). Já Lucas apresenta Maria como a perfeita discípula, que acolhe
a proposta de Deus e a aprofunda no coração, refletindo os fatos. É por isso que ela dá os bons frutos da fé. Maria é a peregrina da fé e sinal profético de uma nova humanidade anunciada pelo Magnificat.

 

         Já o evangelista João apresenta Maria com sua presença profética nas bodas de Caná e na hora de Jesus, junto à cruz. Esta hora é mostrada pelo autor como ápice e não único momento isolado da obra da salvação realizada por Cristo. Por isso, Maria é imagem da Igreja, que se mantém de pé diante da cruz. Isso aparece de outra forma no Apocalipse, como o autor bem explica no capítulo 6. O milagre em João tem uma conotação de ser sinal de algo muito maior e mais abrangente do que o que aparece no contexto material ou pode ser carreado pelo interesse pessoal. O autor reforça isso, mas faz uma afirmação que não distingue o pecador e o pecado, quando diz, citando (Jo 6,26): “Jesus não gosta de pessoas que só buscam milagres para resolver os seus problemas pessoais”. Para mim, todo o problema da fé é não se chegar ao sentimento de ser profundamente amado por Deus Pai, como Jesus o é eternamente. E nesse sentido, Jesus ama profundamente todos os seres humanos, independentemente de suas falhas.

 

         Quanto ao estudo de Maria na Tradição, explica bem o autor que se trata da tradição com “T” maiúsculo, produzida como memória coletiva. Os dogmas são sistematizados como balizas e não podem se tornar afirmações frias sem o gosto experiencial. Isso é muito claro e contundente. No entanto, há uma afirmação que merece reparo: “Os dogmas centrais do Cristianismo são, ao mesmo tempo, infalíveis e reformáveis” (p. 129). É preciso explicar melhor o que significa reformável. Tanto na concepção etimológica grega quanto na apresentação escolástica dos sacramentos, a forma denota o essencial, que não pode ser mudado, isto é, reformado.

          Por fim o autor trata dos dogmas mariais e, de certa forma, conclui de maneira prática toda a sua reflexão anterior. Mostra um grande esforço para apresentar de forma teologicamente compreensível o mistério da fé que os dogmas marianos revelam. Tem naturalmente uma visão ampla, que nos ajuda a mergulhar mais profundamente na mariologia. O sentido teológico e antropológico dos quatro dogmas mariais, a saber, maternidade divina, virgindade perpétua, imaculada conceição e assunção, dá um senso de busca de maturidade na compreensão do mistério. Acho que a saída para esta compreensão segue a terceira via apresentada, na página 154, quando afirma que a interpretação da concepção virginal (segundo dogma), de acordo com a maioria dos mariólogos e do ensino oficial da Igreja, converge para o fato e o símbolo (p. 154). Unindo-se fato e símbolo, não se descarta a história e se preserva toda a mensagem cristológica e trinitária que os dogmas marianos pretendem apresentar. É de grande significado que a imaculada conceição de Maria, na reflexão do autor, denote toda a inteireza daquela que foi agraciada, como “cheia de graça”, símbolo do desejo de Deus para toda a humanidade.

 

Conclusão

 

         A obra de Murad é um enorme esforço de quem aprofunda o tema da mariologia com afinco. Algumas falhas já apontadas por esta resenha não desmerecem, mas, em si tratando do ambiente acadêmico que a Revista de Cultura Teológica representa, agora sob a responsabilidade do Programa de Pós-graduação em Teologia, da PUC-SP, ajudam e provocam a discussão. É neste sentido que as críticas se colocaram.

 

        Quando à interpretação dos quatro dogmas, ponto fulcral do estudo da mariologia, o último dogma, o da assunção, foi o mais frágil, pois partiu de uma escatologia que ainda foi assumida pelo Magistério e, de qualquer forma, não mostrou qual a diferença da assunção de Maria e da ressurreição dos mortos, se ela for considerada simultaneamente ao juízo particular, como se afirma na p. 189. Penso que a obra é um instrumento de reflexão e debate no âmbito acadêmico que esta Revista de Teologia representa.

 

         Encerro a resenha ressaltando que, enquanto “cheia de graça”, Maria não se afirma em privilégios particulares, mas anuncia o desejo de Deus de que também todos os homens e mulheres sejam iluminados pelo mesmo amor que o Filho recebe eternamente do Pai e no-lo oferece por meio da sua encarnação. Nesse sentido, Maria é um sinal perfeito e mais profético do nosso futuro e possibilidade mais atual
do nosso presente.

 

Valeriano dos Santos Costa*