CERIMONIÁRIO

 

O Cerimoniário

 

Muita confusão se faz com o título cerimoniário entre os servidores do altar. Muitos vêem este nome como um simples cargo de honra. Em alguns grupos, um cerimoniário é simplesmente um coroinha mais velho ou mais experiente. Em outros, nem experiente precisa ser. Esta confusão vem principalmente pela falta de conhecimento acerca das instruções litúrgicas sobre o tema ou da vaidade de alguns acólitos. Este artigo busca esclarecer quem verdadeiramente é o cerimoniário e qual o seu papel.

 

O que é o cerimoniário

O cerimoniário é um ofício da Liturgia que exerce o papel de preparo e coordenação da Liturgia, garantindo seu decoro e ordem. É ele quem acerta tudo com os sacerdotes, ministros, acólitos, músicos, leitores, prepara as cerimônias, assiste ao celebrante nas funções e organiza todo o Rito.

 

Segundo o Cerimonial dos Bispos, em seu número 34:

 

O cerimoniário deve ser perfeito conhecedor da sagrada liturgia, sua história e natureza, suas leis e preceitos. Mas deve ao mesmo tempo ser versado em matéria pastoral, para saber como devem ser organizadas as celebrações, quer no sentido de fomentar a participação frutuosa do povo, quer no de promover o decoro das mesmas.

 

Procure que se observem as leis das celebrações sagradas, de acordo com o seu verdadeiro espírito, bem como as legítimas tradições da Igreja particular que forem de utilidade pastoral.

 

Deve, em tempo oportuno, combinar com os cantores, assistentes, ministros celebrantes tudo o que cada um tem a fazer e a dizer. Porém, dentro da própria celebração, deve agir com suma discrição, não fale sem necessidade; não ocupe o lugar dos diáconos ou dos assistentes, pondo-se ao lado do celebrante; tudo, numa palavra, execute com piedade, paciência e diligência.

 

O cerimoniário não é simplesmente “um acólito mais velho” ou “mais experiente”

Apesar de em raras exceções poder desempenhar algum ofício de acólito, como incensar o celebrante na falta de diácono, o cerimoniário não exerce o papel de acólito na Missa. Um cerimoniário, portanto, não faz o ofício de turiferário, naveteiro, librífero, sino, ceroferário, etc. Seu trabalho na Missa é absolutamente diverso, como veremos a seguir.

 

É claro que a pessoa que serve como cerimoniário pode, em outras Missas, servir como simples acólito. No entanto, numa celebração ou se serve como cerimoniário, ou se serve como acólito.

 

O cerimoniário deve ser homem.

No comunicado da Congregação para o Culto Divino de 15/03/1994, libera-se o serviço de meninas e mulheres ao altar. No entanto, nada se fala a respeito do serviço como cerimoniário, nem neste comunicado nem em um posterior. De fato, a função do cerimoniário é profundamente clerical, sendo exercida normalmente por ministros ordenados como acólitos instituídos, diáconos e sacerdotes, e não convém que seja adotada por uma mulher. A Lei Litúrgica nesse sentido é ambígua, mas convém recorrer à Tradição e ao bom senso para reservar esta função para homens. Nas exceções, cabe ao bispo dar a palavra final sobre o tema.

 

A maioria das paróquias não precisa de um cerimoniário

Excetuando paróquias muito grandes e catedrais, com alta complexidade em sua vida litúrgica, o cerimoniário não é necessário na maioria das paróquias, pois a simplicidade da Forma Ordinária do Rito Romano nestas igrejas dispensa este ofício. Em muitos lugares há o cerimoniário “café-com-leite”, que fica simplesmente em pé ao lado do celebrante sem nada fazer, nem antes nem durante a Santa Missa. Infelizmente deve ser dito, isto normalmente é pura vaidade.

 

Poucos tem o conhecimento necessário para serem cerimoniários

O Cerimonial dos Bispos usa uma palavra muito forte para descrever o conhecimento necessário para um cerimoniário: “Perfeito conhecedor da Liturgia, sua história e natureza, suas leis e preceitos”. Isto, claramente, não é algo fácil de se possuir. Muitos querem ser cerimoniários, pois o título e a batina preta são realmente encantadores, mas esta postura normalmente é pura vaidade, e devemos ter muito cuidado com este desejo.

 

 

O que faz o cerimoniário?

Enquanto o servidor do altar executa, o cerimoniário planeja e zela para que saia tudo como deve ser, e a liturgia seja realmente o mais bem feita possível, para a maior Glória de Deus e a salvação das almas. Antes da celebração, ele acerta os detalhes com todos os membros que atuam na liturgia: Acólitos, Ministros, Cantores ou Coristas, Comentarista, Leitores, Diáconos, Sacerdote(s), Bispo(s) e mantém, durante a celebração, um estado de permanente vigilância para que tudo saia como o planejado e o correto. Poderíamos resumir o trabalho do cerimoniário a três P’s: Preparar, Prever e Precaver.

 

No vídeo abaixo vemos bem isto acontecendo. Diante de uma situação inesperada, Mons. Guido Marini age de uma maneira pronta, quase sobre-humana, mas ainda assim discreta e calma. Aqui, tudo já foi preparado para a Santa Missa. Mons. Guido Marini não conseguiu pegar a Férula de Bento XVI simplesmente porque tem rápidas reações, mas porque estava em estado de alerta, prevendo cada próxima ação e estando precavido para não permitir erros possíveis.

 

 

Podemos comparar o cerimoniário a um maestro de uma orquestra. Não é ele quem executa a peça, mas é por meio de seu cuidado que a obra sai de uma maneira perfeita. Sem o auxílio de um maestro, uma orquestra pode facilmente se perder. Do mesmo modo, sem a presença de um cerimoniário, uma liturgia complexa pode ter muitas falhas.

 

 

Segundo consta no Cerimonial dos Bispos:


O mestre de cerimônias apresenta-se revestido de alva ou veste talar e sobrepeliz. No caso de estar investido na ordem de diácono, pode, dentro da celebração, vestir a dalmática e as restantes vestes próprias da sua ordem.

O costume é batina preta e sobrepeliz. Em muitos lugares, porém, imitando as celebrações pontifícias, os cerimoniários tem começado a usar a batina violácea. Isto não é correto, exceto para cerimoniários pontifícios e monsenhores que exerçam o ofício de cerimoniários – já que a cor da batina muda de acordo com o grau do ministro que a veste, e monsenhores usam batina violácea.

A frase “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” se aplica bem à função de cerimoniário. Por ser um ofício que “comanda” a Liturgia e possui, por sua própria natureza, a necessidade de grande conhecimento, é muito fácil cair no orgulho e na vaidade. E vemos, com preocupação, a vaidade de cerimoniários aumentar e causar grandes danos. O cerimoniário seja, antes de tudo, um fidelíssimo servidor da Liturgia. Mas além de sua ortodoxia litúrgica, seja humilde e dócil para com todos os que, de algum modo, colaboram com a Liturgia. De outro modo, não se é verdadeiramente um servo da Sagrada Liturgia, mas sim um escravo de si mesmo